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José Carlos Guimarães
Oliveira Viana foi um importante sociólogo brasileiro. Ideólogo do varguismo, teve influência destacado durante a primeira metade do século XX. Inscreve-se entre as leituras insdispensáveis dos cursos de Ciências Humanas, ao lado de Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Caio Pardo Júnior e outros poucos. Curiosamente, nunca, durante minha passagem pela universidade, um professor mencionou sequer o seu nome. Em 1920 Viana lançou o livro que iria imortalizá-lo, “Populações Meridionais do Brasil”. Não menos sugestivo é “Instituições Políticas Brasileiras”, lançado em 1942. Quem quiser conhecer o Brasil — em particular o período colonial e o Império — precisa ler Viana, independentemente de seu ponto de vista. Sua interpretação do país é autoritária, conservadora e elitista. Numa palavra, antipopular. Na linha de Freyre e Varnhagen, seu pensamento é equidistante do de outro clássico, Capistrano de Abreu, o primeiro historiador a colocar o povo no centro dos acontecimentos. Não significa que Viana não tenha grandes virtudes. Revela-se afinal um crítico às avessas do elitismo que, segundo ele, desenhou as instituições brasileiras. Como ideólogo, propõe que o Estado, desde a Independência, em 1822, é o agente fundamental de coesão e de formação da nacionalidade brasileira. E tudo por um motivo: a ausência, desde sempre, no Brasil, de qualquer coisa semelhante às comunas rurais europeias, que desse ao “povo-massa” qualquer responsabilidade sobre o próprio destino. O brasileiro de baixo na escala social foi sempre um dependente; nunca soube o que é autogovernar-se, como seu equivalente inglês e norte-americano. Daí sua miséria e sua necessidade de ter sempre um demiurgo providencial, como Dom Pedro II; um pai carismático, como Getúlio Vargas; um guia benevolente, como Lula.
Marcelo Franco
Fazendo minha ronda pelas livrarias, percebi a dificuldade de encontrar estudos sobre Pedro Nava. Nada de novo no front: Nava, autor de seis magníficos livros de memórias, louvado pelos colegas escritores até, creio, o final da década de 80, foi depois esquecido pelos intelectuais brasileiros e parece não despertar muito interesse naqueles que poderiam divulgar a sua literatura. Como sou “pedro-navista” de carteirinha, isso me causa estranheza — assim, permitam-me relembrá-lo aqui.
Em junho de 1903, nasceu, na mineira Juiz de Fora, um “pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais”, como ele escreveu no primeiro livro de suas memórias, “Baú de Ossos”, usando uma fórmula de Eça de Queirós (“Eu sou um pobre homem da Póvoa do Varzim”), depois também utilizada por Otto Lara Resende (“Eu sou um pobre menino do Matola, de São João del Rei”) — aliás, como a inveja é o pecado dos escritores frustrados, eu gostaria de poder dizer que sou um pobre homem de São Sebastião do Alemão (Palmeiras de Goiás, cidade da minha família materna), ou que sou um pobre homem de Itaberahy (Itaberaí, claro, onde nasceu meu pai), mas fico apenas na vontade não realizada, pois nasci nesta mui nobre, mui leal, benemérita, heróica, invicta e boa cidade de Goiânia.